Proibido dissertar sem dissecar

eu com livros

Hoje, resolvi falar de uma das coisas que mais amo neste mundo: LIVROS! <3

Quem nunca ouviu e/ou disse a frase “li este livro em apenas dois dias!” que atire a primeira pedra. Perdi a noção de quantas vezes escutei isso! Já refleti muito sobre o assunto no passado e cheguei à conclusão de que ler rápido não pode ser bom. Tudo depende, é claro, do propósito da leitura, mas não consigo ver vantagens na leitura superficial. Você consegue?

Eu não tive, infelizmente, um professor específico, um mestre, que tenha me ensinado as vantagens de se ler devagar, de ir além do significado de cada palavra, de degustar o texto e de enxergar o que há por trás das linhas. Alguns professores tentaram, embora com outras palavras, mostrar a importância disso, mas acho que a gente só entende quando tenta. Sabe? Sublinhar. Escrever ao lado. Realçar partes do texto. Só caiu a ficha pra mim de como isso funciona quando eu fui lá e fiz. E olha que eu sempre tive dificuldade de “sujar” o livro com anotações. Acho que é por isso que demorei tanto pra aprender “a ler de verdade”. Acabei descobrindo a pólvora sozinha, mas aprendi. É o que importa.

Num curso preparatório, tive um professor de português que amava semântica. Ele conhecia a origem de todas as palavras do mundo, sem brincadeira. Era um dicionário etimológico ambulante. Ele amava os significados, os significantes; destrinchava as ramificações da língua e sabia latim melhor que o Papa. Me admira muito que eu não tenha aprendido latim ou grego, mas, apesar de na época não ter dado muito valor, hoje acho fascinante – não o latim, a etimologia (quem dera eu saber latim!) – e entendo perfeitamente a paixão dele. Eu era meio cega para as oportunidades. Acho que tudo tem sua época, né?

Na faculdade, tive uma professora, também de português, que pedia para buscarmos referências, traçarmos comparações e origens dos assuntos a fim de entender melhor o texto. Em outras palavras, eu precisava entender o passado, o presente e o futuro do que estava sendo dito a fim de compreender para sequer começar a falar sobre ele. Era proibido dissertar sem dissecar.

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Pode parecer algo óbvio a ser feito, mas quando se trata de livros de ficção acho que nem todo mundo vê dessa forma. Afinal, uma história é uma história… com começo, meio e fim, na maioria das vezes, e não há nada mais que precisamos saber sobre ela, certo? Nope. Negativo. Não posso afirmar que todo autor faz isso, mas acho que há muito o que descobrir nas entrelinhas; mil e uma histórias dentro da principal, ditas ou não ditas, basta que o leitor esteja disposto a percebê-las.

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Confesso que nem sempre posso destrinchar os livros que leio; alguns faço até sem perceber pela força do hábito; outros não conseguiria nem se quisesse – no trabalho, nem sempre dá tempo. Apesar disso, considero a degustação obrigatória. Juro que, depois da primeira vez, que pode ser bem lenta e confusa, esse hábito se torna prazeroso e só faz você querer ler mais e mais obras.

Por que o autor optou por escrever em vários pontos de vista? Por que ele apresentou o personagem primeiro e depois a cena? Por que os personagens são crianças, mas a linguagem é adulta? Por que as palavras são rebuscadas nas descrições, mas no diálogo não? Por que isso foi citado aqui? Por quê?

Essas são algumas das perguntas macro, mas há milhões de outras: sobre a história, sobre cada personagem, sobre as palavras usadas, sobre o estilo do autor… Livros são obras. São feitos para se ler, em todos os sentidos da palavra.

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Numa exposição de arte, quadros e pinturas, as pessoas não param e refletem sobre a obra? Discutem cor, forma, estilo, época; criticam a ordem, traçam referências e comparam tendências. O livro é uma arte e, na minha opinião, deveria ser tratado como tal.

Nem todo mundo precisa encarar os livros como um dissertação, mas é importante ter em mente o que se perde da leitura se a decisão tomada for de apenas lê-los superficialmente, sem esforço. É isso o que penso.

E você? Gosta de ler devagar ou rápido?

PostAutorVivi